domingo, 3 de julho de 2011

Resenha de "Seta do Tempo, Ciclo do Tempo"

Stephen Jay Gould
Um de meus autores favoritos é Stephen Jay Gould. Falecido em 2002, Gould foi um dos maiores divulgadores de ciência do século passado, não perdendo em nada ao lado de gigantes como Carl Sagan e Richard Dawkins, inclusive, tendo uma rivalidade amigável com o último, infelizmente não resolvida. 


Gould foi autor de uma coluna na Natural History, onde discorria sobre diversos temas, em sua maioria ligados à biologia evolutiva, mas também à música, teatro, personalidades e até sobre design de teclados! Boa parte dessas crônicas foram lançadas em coletâneas ao longo dos anos. A leitura é excelente, mas um pouco salgada ainda. Mesmo em sebos, dificilmente um exemplar típico sai por menos de R$ 40,00.


Mas, Gould não escreveu apenas crônicas curtas. Também foi autor de diversos livros, entre eles o que lhes apresento agora:


Companhia das Letras, 1991, 224 páginas.

Em "Seta do Tempo, Ciclo do Tempo", Stephen Jay Gould, um dos maiores divulgadores de ciência do século XX fala de sua revelação pessoal acerca de três grandes personalidades na história da geologia: Burnet, Hutton e Lyell. A história popular renegou ao primeiro o encargo de "vilão", um bibliólatra que sozinho conseguiu atrasar o desenvolvimento das ciências em um século. Hutton e, posteriormente, Lyell, foram então os heróis que salvaram a ciência das garras do obscurantismo.

Como é de costume nas obras de Gould, há a desconstrução dos mitos populares. Em especial, o autor ataca a falsa dicotomia entre a seta do tempo (o progresso do tempo, marcado por singularidades, que fazem a história) e o ciclo do tempo (a imanência das leis e retorno dos padrões, sem que haja uma história).

Hutton, com sua "machina mundi", dava total importância ao ciclo do tempo, chegando ao extremo de afirmar que a história não existe, pois é impossível singularizar um ponto qualquer num ciclo eterno. Lyell, um dos grandes nomes da ciência e considerado por muitos o fundador da geologia moderna (nomes como Eoceno e Mioceno são de sua autoria), também bebeu na fonte do ciclo do tempo, baseando todo o seu Principles of Geology nesse princípio.

Conhecido por muitos através do "Origem das Espécies" de Darwin, foi uma grande fonte de inspiração para o último, citado diversas vezes no livro. Há até um feedback positivo: as idéias de Lyell alimentaram a teoria de Darwin ao fornecer um tempo profundo, e Darwin, com sua teoria do surgimento dos atóis, forneceu suporte teórico à Lyell.

Em suas últimas edições, Lyell, com todas as evidências reunidas por quase um século, não pôde mais manter suas idéias de imanência na complexidade das espécies, e houve um recuo nesse ponto de dolorosa honestidade intelectual.

O livro ataca também o anacronismo, o modo de ler a história passada como uma série de passos para chegar no presente. Por exemplo, ler tratados do século X em busca de fragmentos textuais que mostrem indícios de pensamentos evolutivos por seleção natural, descartando todo o restante da obra.

E, por que não, outra grande "fraude" das histórias populares: o debate Lyell vs Cuvier. Enquanto Lyell é retratado como o herói uniformitarianista, Cuvier é renegado ao posto de catastrofista vilão. A falsa dicotomia nos fala que Cuvier pregava uma Terra jovem, enquanto na verdade AMBOS defendiam um planeta de mesma idade, "velho", apenas diferiam nos processos geológicos.

Por exemplo, ele utilizou grupos de moluscos para datar quais camadas do Terciário eram mais recentes. Porém, ao chegar na junção do Terciário com o Mesozóico, problema: não havia NENHUM grupo de molusco existente do Terciário mesmo na camada logo abaixo (e mais recente) do Cretáceo. A explicação: houve um longo período sem deposição.

Nesse caso, plot twist de deixar M. Night Shyamalan roxo de inveja: os catastrofistas ganham. É consenso geral entre os cientistas que houve a queda de um imenso meteorito, gerando a extinção K-T (entre o Cretáceo e o Terciário) que dizimou, entre outros, os dinossauros e abriu o caminho para o desenvolvimento dos mamíferos.

O que se ganha com isso? A lição de que um pensamento dicotômico não consegue enxergar as nuances de cada extremo, de que, entre os dois, há algo com propriedade de ambos. A extinção K-T, a segunda maior documentada, não pode ser compreendida sem a combinação dessas duas visões, o progresso inexorável do tempo, e a imanência das leis naturais.

Reconheço que o livro tem um nicho menor. Boa parte dos termos talvez seja restrita para um público um pouco mais experimentado. Mas para quem gosta de desconstruções, de heróis e vilões e de ciência, a leitura é muito boa.

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